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Protetor descreve infância cercada de bichos e sua dedicação aos gatos errantes

Por Eduardo Pedroso

Entrevista publicada originalmente na coluna do Xerife Animal (Guilherme Bunger). Revista Bom Criador número 13, de agosto de 2021.

1) Guilherme Bunger Eduardo, imagino que sua relação com animais venha desde sua infância. Estou certo? Desde o início com gatos, ou se iniciou com outros animais e depois os gatos entraram na sua vida e quando e como?

Eduardo Pedroso Eu nasci e fui criado em bairros suburbanos da cidade de São Paulo. Sou de uma geração que tratava a televisão como apenas mais um eletrodoméstico da casa. Fui criado solto da porta para fora, o contato com os animais de rua era inevitável. Se não estava na escola, estava jogando bola ou cuidando de bicho.

Quando eu tinha sete anos vi um saco de lixo se mexer e de dentro retirei um filhote de cadela. Essa cachorrinha, a Deby, me acompanhou até a idade adulta. Além disso minha ascendência familiar materna é cheia de histórias com gatos. Minha bisavó espanhola tinha muitos. Minha mãe era uma “gateira”, e do seu jeito, protegia animais de rua. Ela tinha alguns em casa. Era um momento da vida social do paulistano de classe média baixa que não existia proteção animal, o acesso a médico veterinário era financeiramente impossível e o envenenamento de cães e gatos era prática muito mais comum. Minha mãe sofreu um bocado por amar gatos. Hoje ainda minha tia Carmem tem alguns vira-latas em casa e é fã do Marcelinho Protetor.

2) GB E quando e como veio esta inspiração para atuar de maneira especializada com os gatos errantes de todo o país?

EP Eu sempre tive a intuição de que as inúmeras instituições que abrigam cães e gatos na cidade de São Paulo estavam (e estão) totalmente desconectadas do compromisso de controlar as populações de rua dessas espécies. Elas estão antes preocupadas em garantir sua existência e o bem-estar de seus dirigentes. Em São Paulo, e no Brasil, animal de rua virou trampolim social. Sabendo disso me dediquei a pensar numa solução que não envolvesse a retenção física dos gatos, um tratamento in loco, quer dizer, resolver a situação onde ela se encontra.

Fica fácil entender minha posição quando uso essa analogia: é sadio e melhor para todos quando não se remove uma favela, o poder público e outras instituições de cunho social procuram indenizar os proprietários da área e desenvolver a estrutura local, fornecendo saneamento básico e outras melhorias para dar condições de vida adequadas e decentes às famílias. Assim é com os gatos, não se remove uma colônia, aplica-se um método para controlar e tornar essa mesma colônia saudável e monitorada, de maneira que não comprometa a saúde pública humana e proporcione bem-estar aos animais.

Anos atrás, quando iniciei minha caminhada com os gatos de rua, o que se tinha de proposta para controle eram os mutirões de castração. Entretanto mutirões não atingem as colônias, pois esse sistema só beneficia gatos domiciliados e semi-domiciliados, os de temperamento tranquilo. Uma parte importante e numerosa da população do gato doméstico que habita o meio urbano fica de fora dos mutirões. Os gatos não domiciliados, os chamados assilvestrados, os asselvajados, ou popularmente conhecidos como ferais, continuam formando colônias em terrenos baldios, cemitérios e muitos outros locais onde existam condições para a espécie se abrigar e reproduzir. Esses são inacessíveis e só com técnica de captura podem ser controlados.

Um dia minha procura encontrou algo importante. Creio que faça uns dez anos, eu assisti uma palestra na OAB na Praça da Sé. A palestrante era a Tatiana R. S. Cunha, idealizadora da ONG Confraria dos Miados e Latidos, e o tema era simplesmente CED (captura, esterilização e devolução). Foi incrível ver que alguém fazia na minha cidade tudo o que eu lia a respeito do que se fazia planeta afora. A Tatiana foi a primeira pessoa no Brasil a cumprir o rigoroso protocolo internacional de CED. Ela é a pioneira e serviu de orientação e inspiração para muitos ativistas e profissionais que hoje praticam o controle ético de gatos de vida livre.

3) GB Recentemente um deputado estadual de SP interveio de maneira polêmica junto à Prefeitura de Ilha Bela-SP. Como o próprio nome da cidade diz, trata-se de uma ilha, portanto uma área de certo isolamento geográfico para gatos. Qual é a situação de gatos errantes que existe nesta região específica?

EP Gato em ilha é problema. Há uma farta literatura a respeito dos esforços de biólogos para livrar ambientes insulares da presença de gatos domésticos. Existe até uma história famosa que se tornou uma espécie de parada obrigatória quando o assunto é bichano rodeado de água comendo animais silvestres. Reza a lenda que no final do século XIX, um único gato, o Tibbles, animal de estimação do faroleiro da Ilha Stephen, na Nova Zelândia, foi responsável pelo desaparecimento da última espécie de passarinho não voador do planeta, a endêmica cotovia-da-ilha-Sthepen. Não é verdade que um único gato tenha sido o responsável pela extinção da cotovia. E provavelmente nem só o gato tenha participado como predador exótico invasor desse processo de perda ambiental irreparável. É que Tibbles, o faroleiro e a cotovia viraram um símbolo de combate pela conservação das faunas originais das ilhas do planeta.

No Brasil a marinha erradicou o gato da Ilha de Trindade, no Espírito Santo, em 1989. Outras espécies de fauna e flora exóticas invasoras foram também erradicadas e o resultado hoje é a volta com força de espécies nativas e o retorno pleno do ecossistema em seu estado de conservação original, a despeito da convivência de contingentes militares no local. Eu participei de duas experiências em ilhas, uma em meio selvagem, A Ilha dos Gatos (Ilha Furtada) no litoral sul do Rio de Janeiro, e mais recentemente coordenei para o ICMBio e para a Ampara Animal duas ações em Fernando de Noronha, PE. Não houve erradicação e sim controle com método CED. É bastante polêmico aplicar método que envolva devolução em locais que a fauna nativa sofre pressão contínua de espécie exótica invasora. Entretanto, muitas vezes é preciso considerar que a redução de danos é a única maneira possível de contribuir para a conservação desse ou daquele ecossistema.

A Ilhabela entra no contexto exposto acima. O que chama atenção é que no caso dessa cidade, um órgão da Prefeitura, o Centro de Referência Animal, passou a adotar um dos protocolos do método CED, que é a identificação dos gatos castrados através de uma marcação em uma das orelhas. Uma marcação simples e indolor, capaz de ser muito útil pois separa visualmente os indivíduos castrados dos não castrados nos trabalhos de campo. Entretanto, parte da proteção animal da cidade, um contingente não esclarecido e pouco afeito a estudos e novas ideias, passou a adotar a narrativa equivocada de classificar a marcação como uma mutilação. Algo absurdo e totalmente fora de propósito.

O mais chocante é que a narrativa primitiva e estúpida ganhou guarida do deputado estadual por São Paulo, o Bruno Ganem. Esse senhor, eleito com votos da proteção animal, desconhece o método CED e por conta de sua ignorância no assunto, oficiou a Prefeitura de Ilha Bela, cobrando explicações sobre o que ele e seu curral eleitoral chamam de mutilação na orelha dos gatos. O vereador Felipe Becari também oficiou a prefeitura de Ilha Bela no mesmo sentido. O que esses homens estão fazendo é uma covardia. Eles estão criminalizando um método que se mostra eficaz para controlar a população de gatos de vida livre. Esses maus políticos não querem saber dos benefícios que o método CED traz para a saúde pública, o bem-estar animal e conservação da fauna nativa brasileira. É nojento.

4) GB E qual seria a melhor iniciativa técnica para se atuar nesta situação?

EP Vou responder de forma mais abrangente. Em qualquer situação em que uma espécie exótica invasora faça pressão sobre espécies nativas, especialmente nas áreas delimitadas como unidades de conservação (UC), é absolutamente necessária a erradicação da espécie exótica invasora. E não estou falando só de cães e gatos, muitas outras espécies introduzidas estão sepultando nossa vida selvagem sem que façamos absolutamente nada. Javalis estão dizimando nossa fauna original. Em Fernando de Noronha constatei uma população enorme de tejus. Esse lagarto é nativo em boa parte do continente americano, entretanto, na ilha, foi introduzido como animal de abate e hoje são mais de 12.000 indivíduos consumindo a biodiversidade local, muito mais que os gatos, que vem sofrendo um decréscimo na população por conta de trabalhos de controle. Lagartos gostam de ovos de tartaruga marinha, desenterram os ovos e causam um prejuízo gigante. E nada se faz. Inclusive existe uma discussão maluca sobre o direito de proteção do teju, uma vez que a espécie é nativa no Brasil. Não tenho medo de afirmar isso.

E faço oposição marcada a qualquer ativista ou biólogo que defenda o direito de existência de espécies exóticas invasoras em nosso meio selvagem. Sou um ambientalista brasileiro, e como tal tenho o dever de lutar pela conservação da fauna e flora do meu país. Essa reflexão ganha contornos diferentes no meio urbano. A aplicação do método CED é superpositiva em locais de grande densidade populacional humana em que a presença de espécies nativas é bastante escassa. Nesse cenário, a manutenção do gato doméstico de vida livre, esterilizado e imunizado contra raiva, é benéfica pois proporciona controle biológico de roedores.

Nossa vida nas grandes cidades seria um inferno se camundongos, ratazanas e ratos de telhado tivessem acesso constante aos nossos ambientes aqui em cima. Eu faço esse exercício: penso que estou aqui seguro e alimentado enquanto milhões de pequenos mamíferos famintos e vorazes estão a alguns metros para baixo dos meus pés, esperando uma oportunidade para roubar minha comida e me infectar de leptospirose. Os ratos não avançam por conta da presença inequívoca do gato doméstico, seu predador histórico ao longo dos tempos. Durante a estada inglesa na Palestina após a Primeira Guerra Mundial, os súditos da rainha resolveram erradicar os gatos de Jerusalém. Um mês depois da infeliz empreitada estavam capturando gatos nas ruas de Londres para repor a população removida da Cidade Santa. As mães já não soltavam seus bebês dos colos com medo de ataques de ratos. No século XIV o Papa Gregório fez sugerir através de um documento que gatos estavam associados a cultos pagãos e a pulga do rato dizimou 200 milhões de pessoas.

Sábios foram os egípcios, que compartilharam com os gatos o trabalho de segurança alimentar de suas populações, uma vez que permitiram e estimularam a presença dessa espécie em uma incrível inovação tecnológica que mudou a história 12.000 anos atrás, os celeiros. Hoje experimentos no Brasil estão sendo feitos para tratamento ecologicamente correto de ambientes de varejo com presença de gatos domésticos. Os próximos anos serão interessantes para observar o choque entre a retomada de um conhecimento ancestral (o controle biológico no Egito antigo) e as rígidas regras sanitárias nada eficientes que regem a rotina dos estoques de supermercados. Resumo: gato doméstico no meio selvagem não pode ser tolerado e gato doméstico em meio urbano deve ser tolerado enquanto agente de controle biológico.

5) GB Especificamente sobre a técnica CED, pode nos explicar a respeito?

EP CED significa Captura, Esterilização e Devolução e é um método de controle da população de gatos de rua que tomou forma em Londres no meio do século passado. O método possui um protocolo a ser seguido. Basicamente temos para a captura o estudo de área e o armadilhamento do ambiente, para a etapa da esterilização temos a castração minimamente invasiva, a marcação de orelha e vacinação contra raiva, a terceira fase é dedicada à soltura, ou melhor, devolução do animal para o ambiente onde é sua área de vida e foi capturado. A devolução evita que uma nova população da espécie ocupe a área da atual colônia e evita também o confinamento de gatos de temperamento forte em abrigos de ONGs e prefeituras.

6) GB Em suas atuações Brasil afora, quais as mais emblemáticas, quais situações mais marcantes? Tem ideia de quantos felinos já passaram por suas mãos?

EP Trabalhei muito nos últimos anos. Participei do esforço da frente que se montou para tentar controlar a população de gatos de Fernando de Noronha, trabalho em andamento na ilha. Estive na Baía de Sepetiba tomando parte de uma expedição para aplicar CED na famosa Ilha dos Gatos. Trabalhei durante as olímpiadas do Rio de Janeiro, em 2016. O comitê olímpico internacional tentou se redimir da matança das populações de cães e gatos de rua promovida pela prefeitura de Sochi dois anos antes, nos jogos de inverno de 2014, na Rússia. Tenho muito apreço pelo trabalho que desenvolvo atualmente, uma experiência que tem dado bons resultados e refere-se a tratamento ecologicamente correto de ambientes de varejo com presença de gatos domésticos de vida livre.

Entretanto, todos os trabalhos que desenvolvi até agora foram, sem exceção, ligados a instituições que me limitaram as ações em algum momento. Nunca tive total autonomia para aplicação do meu trabalho de controle ético de gatos de rua. Aguardo essa oportunidade estudando e me mantendo ativo nos trabalhos de campo que desenvolvo atualmente. Gostaria muito de recursos para tratar as zonas de amortecimento das mais de 300 unidades de conservação do país. O tratamento desse entorno impediria a entrada de cães e gatos no coração das unidades.

7) GB Sua atuação parece ser muito entre a cruz e a espada entre os ambientalistas que possuem várias correntes doutrinárias. Por um lado, o controle populacional e visto de maneira positiva e apoiado, por outro a técnica CED é criticada por alguns. Recentemente em seu blog FAUNAUÊ (https://faunaue.com/), você postou um artigo muito interessante questionando a ideologia vegana que te apoia até certo ponto e te crítica em outro. Como é lidar com isso?

EP Ser independente e ter ideias próprias custa muito caro em qualquer segmento social. Na proteção animal o preço é dobrado porque a proteção lida quase que exclusivamente com o aspecto emocional das pessoas. A causa animal é terreno fértil para marqueteiros de ocasião e para aproveitadores que manipulam as protetoras para obter proveitos diversos, desde doações em dinheiro (que muitas vezes passam longe dos bichos) até votos para eleger vereadores e deputados. Especificamente sobre os veganos, eu recuperei o artigo do ambientalista argentino Cláudio Bertonatti, em que ele demonstra de maneira irrefutável que o consumo de uma simples fatia de pão significa a morte de animais silvestres. Vale a pena ler esse artigo.

8) GB Ao longo desta última década muito se fala a respeito da Lista Pet. Felinos são vários, e a última proposta sugeriu a indicação do gato mourisco para ser um animal pet. Na sua opinião quais felinos poderiam ser pet e quais outros não? Felinos de grande porte como leões, tigres, onças, conseguem ter uma vida digna em zoológicos no Brasil como criação conservacionista ou para educação ambiental?

EP Qualquer animal pode ter uma vida digna dentro de uma perspectiva de criação ex-situ, ou seja, fora de seu habitat natural. Vejam o trabalho desenvolvido pelo Instituto Onça Pintada (IOP). Une a atividade de conservação da onça pintada em cativeiro, prevendo uma eventual extinção da espécie no meio natural, e educação ambiental. A rotina das onças é mostrada diariamente pelas redes sociais. Isso educa o público e o faz ficar informado. As pessoas aprendem sobre as onças e seu manejo adequado. Isso é conservacionismo e educação ambiental ao mesmo tempo.

Sobre zoológicos, eu particularmente não gosto da presença de animais exóticos nesses locais. Essas espécies tomam conta do imaginário popular e ofuscam a apreciação dos animais nativos. Antes da pandemia do coronavírus levei meu filho ao Zoológico de São Paulo e vi dezenas de pessoas ao redor do recinto dos leões, ao passo que só eu e meu nenê demos atenção para o gato mourisco. Muita gente que foi ao zoológico naquele domingo não sabe da existência desse belo felino silvestre. Sinto que a presença dos exóticos não nos educa.

Sobre a Lista Pet, a considero conceitualmente positiva.

A colonização europeia afastou, como a história nos mostra, os animais silvestres do convívio humano. Os povos primitivos do Brasil, os índios, tinham pets, e esses eram os animais nativos, isso é óbvio. O livro da bióloga Maristela Zamoner, Xerimbabo, mostra isso muito bem. Portanto a reintrodução dos silvestres em nossa rotina de vida é muito saudável, especialmente para as espécies, que ganharão com seus crescimentos populacionais e estarão salvas da extinção.

Entretanto é impossível não expor uma questão. Como saber se quem vai ter a posse do animal terá condições para mantê-lo de forma correta? Sejamos sinceros, quantas pessoas conhecemos hoje que sabem fazer o manejo correto de um gato mourisco? Qual trabalho, e não deve ser pouco, dão os gatos mouriscos que habitam o Zoológico de São Paulo? Uma pessoa comum estaria apta a ter um gato desse? Creio que a lista pet é bem-vinda, mas ela precisa estar acompanhada de educação ambiental, capacitação técnica e estrutura material para manter com dignidade os animais silvestres.

9) GB Qual mensagem final você gostaria de deixar a respeito de felinos no Brasil para os leitores da Revista Bom Criador?

EP Que não existem só gatos domésticos no Brasil. Pesquisem, estudem e apoiem entidades que trabalham com gatos nativos. Eu dou suporte para dois gatos do mato pequeno (Leopardus guttulus), a Sarah e a Pipoca, que estão no Núcleo da Floresta, um centro de reabilitação de animais silvestres localizado na cidade de São Roque, interior de São Paulo.

https://bomcriador.com.br/

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