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Adaptação e mudanças no comportamento territorial e alimentar de Puma concolor em contextos urbanizados: um estudo de caso no município de Itu/SP

Por Eduardo Pedroso

Rafael Mana
Biólogo Especialista
Diretor do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres
CRAS Núcleo da Floresta
São Roque, SP. Brasil
E-mail: nucleodafloresta@terra.com.br

RESUMO
O presente estudo investigou a adaptação e mudanças no comportamento territorial e alimentar de Puma concolor em contextos urbanizados, utilizando o município de Itu/SP como estudo de caso. Foram analisadas ocorrências registradas entre maio de 2022 e maio de 2025, com base em evidências visuais provenientes de câmeras-trap, câmeras de segurança residenciais e relatos de moradores, complementadas por buscas in loco de pegadas, fezes e pêlos. A individualização dos animais permitiu identificar 16 indivíduos adultos/jovens e cinco filhotes, assim como mapear áreas de ação, com raios médios de 5 km para fêmeas e indivíduos de sexo indefinido e 10 km para machos.

As análises coprológicas revelaram dieta composta por presas sinantrópicas, incluindo aves domésticas (Gallus gallus, Anas sp.), e Lepus europaeus, indicando plasticidade alimentar e exploração de recursos urbanos. A presença contínua de indivíduos em diferentes áreas sugere adaptação territorial a ambientes antropizados e o uso de corredores ecológicos urbanos.

Os resultados evidenciam queP. concolor consegue manter comportamentos naturais em paisagens urbanizadas, ajustando o tamanho de suas áreas de vida e explorando recursos disponíveis, mas também reforçam a necessidade de estratégias de manejo e políticas públicas para reduzir conflitos com humanos. Pesquisas futuras com monitoramento sistemático, telemetria, análise genética e avaliação da disponibilidade de presas são recomendadas para aprofundar a compreensão sobre a ecologia urbana da espécie e subsidiar ações de conservação.

Palavras-chave: Puma concolor, comportamento territorial, dieta, urbanização, monitoramento.

1 INTRODUÇÃO

A espécie Puma concolor (Linnaeus, 1771), popularmente conhecida como onça-parda ou suçuarana, tem mostrado sinais de adaptação a ambientes urbanizados nos últimos anos. Essa mudança de comportamento é evidenciada pelo aumento crescente de registros dessa espécie em áreas cada vez mais próximas ou até mesmo dentro de zonas urbanas, o que levanta importantes questões sobre a convivência entre humanos e a fauna silvestre.

Esta pesquisa foi motivada por esse aumento de registros, que sugere uma possível mudança no padrão de uso do espaço pelas onças-pardas, refletindo os efeitos da urbanização com a fragmentação de habitats, expansão de condomínios sobre áreas preservadas, queimadas, desmatamentos e a automatização das culturas agrícolas na região.

O estudo foi realizado em todo o território do município de Itu, localizado no estado de São Paulo, abrangendo diferentes ambientes e zonas urbanizadas da cidade. A pesquisa teve início em maio de 2022 e foi concluída em maio de 2025, permitindo uma análise detalhada das mudanças no comportamento, na dieta e na adaptação dessas onças-pardas ao ambiente urbano.

O objetivo principal deste trabalho é demonstrar as transformações no comportamento
territorial, na alimentação e na convivência das onças-pardas com o ambiente urbanizado, contribuindo para uma melhor compreensão dos desafios e das estratégias de conservação necessárias para essa espécie em contextos de urbanização acelerada.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 CARACTERÍSTICAS GERAIS DE PUMA CONCOLOR

A Puma concolor, também conhecida como onça-parda, suçuarana ou puma, é a segunda maior espécie de felídeo do continente americano, perdendo em tamanho somente para a Onça pintada (Panthera onca), pertencentes à família Felidae. Sua distribuição geográfica abrange uma vasta área que se inicia no Canadá até o extremo sul da América do Sul, incluindo diversos biomas, como florestas, savanas, montanhas e áreas semiáridas (De Azevedo et al. 2013).

2.2 MORFOLOGIA E DIMORFISMO SEXUAL

A espécie apresenta uma morfologia robusta, com um corpo alongado, musculoso e de
grande porte, adaptado para a caça e a locomoção eficiente em diferentes ambientes. Seu comprimento total varia entre 1,5 a 2,5 metros, incluindo a cauda, que pode medir de 63 a 90 centímetros (De Azevedo et al. 2013). Os machos geralmente são maiores que as fêmeas, apresentando peso que oscila entre 40 a 72 kg, enquanto as fêmeas variam de 34 a 48 kg (Sunquist & Sunquist, 2009). A pelagem é uniforme, de coloração que varia do amarelo pardo ao avermelhado, podendo apresentar no dorso uma coloração acinzentada, com ventral mais claro e ausência de marcas faciais distintas, diferentemente de outros felídeos como a Onça-pintada (Panthera onca) e Jaguatirica (Leopardus pardalis).

2.3 ADAPTAÇÕES E CAPACIDADE DE LOCOMOÇÃO

O puma possui adaptações anatômicas que favorecem sua capacidade de caça e
deslocamento em ambientes variados. Seus membros são longos e musculosos, permitindo saltos de até 6 metros em comprimento e 3 metros em altura, além de uma velocidade máxima de aproximadamente 80 km/h em curtas distâncias (Sunquist & Sunquist, 2002). A cauda longa auxilia na estabilidade durante a corrida e na comunicação visual com outros indivíduos. É uma espécie que pode utilizar extensos territórios, tendo a maior área utilizada por um indivíduo macho, registrada através de rádio-telemetria, de 610km² (Paula et al. 2015).

2.4 DIETA E COMPORTAMENTO ALIMENTAR

Como predador de topo, Puma concolor apresenta uma dieta altamente variável, e em
ambiente natural é composta principalmente por mamíferos de médio a grande porte, como veados, capivaras, quatis, cachorros-do-mato, tatus e roedores, além de aves e répteis em menor escala (Vidolin, 2004, Cruz et al. 2019, Martins et al. 2008).

Contudo, em áreas antropizadas e de silvicultura, a preferência alimentar é demonstrada por aves, seguida por mamíferos de pequeno porte e répteis (Gheler-Costa et al. 2018), tendo a predação de animais de criação um grande papel nessa adaptação alimentar (De Sousa Borges et al. 2017, Sá, 2005, Bulsoni, 2023, Ubiali et al. 2018). Sua estratégia de caça é predominantemente solitária, baseada em emboscadas e ataques rápidos, aproveitando a camuflagem e o ambiente para surpreender a presa.

2.5 REPRODUÇÃO E CICLO DE VIDA

A espécie apresenta um ciclo reprodutivo que varia de acordo com a disponibilidade de
recursos e condições ambientais, tendo a interferência antrópica grande efeito na dispersão da espécie. As fêmeas apresentam maior comportamento de filopatria que os machos, estes sendo maiores responsáveis pela diversidade genética e redução da endogamia da população, percorrendo grandes distâncias ao encontro de diferentes fêmeas (Oliveira, 2019 e Biek et al. 2006).

O tempo de gestação das fêmeas é de 84 a 98 dias, com ninhadas que geralmente consistem de 1 a 6 filhotes, sendo mais comum três ou quatro filhotes (Nowak, 1999). Os filhotes nascem com olhos fechados até seus 5 a 14 dias de vida (Sunquist & Sunquist, 2002), permanecendo sob cuidados maternos por cerca de dois anos (Oliveira & Cassaro, 2005, Rocha & Sekiama, 2016). Os pumas atingem a maturidade sexual por volta de 2 a 3 anos de idade (Mazzoli, 2010).

2.6 CONSERVAÇÃO E STATUS ATUAL

Apesar de sua ampla distribuição, Puma concolor enfrenta ameaças significativas devido à perda de habitat, fragmentação de áreas naturais, atropelamentos, caça ilegal e conflitos com atividades humanas. A espécie é classificada como “Quase Ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), sendo fundamental a implementação de estratégias de conservação que promovam a coexistência pacífica entre humanos e a fauna silvestre (Ubiali et al., 2018).

O comportamento territorial da espécie se mostra mais evidente nos machos que evitam a sobreposição de áreas de vida com outros machos (Logan & Sweanor, 2001), o que pode acontecer em épocas de reprodução, uma vez que os machos é que percorrem grandes distâncias até as fêmeas (Biek et al. 2006). E este é um dos grandes motivos do número de machos atropelados nas rodovias ser o dobro do número de fêmeas, colocando a espécie não apenas em risco pela diminuição da densidade populacional, mas também pela diminuição da diversidade genética (Saranholi, 2018, Miotto et al., 2011).

3 METODOLOGIA

Este estudo foi realizado no município de Itu, localizado na Região Metropolitana de
Sorocaba, na Mesorregião Macro Metropolitana Paulista, a aproximadamente 100 km da capital São Paulo. O município possui área total de 640,719 km² e população estimada de 168.240 habitantes, conforme o Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2025). A escolha de Itu deve-se ao fato de o município apresentar o maior número de registros de ocorrência de onças-pardas na região, segundo informações fornecidas pela Prefeitura Municipal.

Durante o período de estudo, a Prefeitura manteve convênio com o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) Núcleo da Floresta, o que possibilitou ações conjuntas de resgate e educação ambiental junto à comunidade, empresas e condomínios, assegurando o reporte ágil e confiável de ocorrências tanto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente quanto ao CRAS.

Todas as ocorrências registradas entre maio de 2022 e maio de 2025 foram verificadas in loco. Foram coletadas evidências indiretas, como pegadas, fezes e pelos, além da inspeção de possíveis carcaças de animais predados. Também foram instaladas armadilhas fotográficas (câmeras-trap) com o objetivo de identificar a presença ou reincidência de indivíduos, possibilitar a individualização, verificar a presença de filhotes e obter informações sobre o comportamento.

Adicionalmente, utilizaram-se registros fornecidos por moradores, incluindo fotografias,
relatos e vídeos capturados por câmeras de segurança instaladas em residências, condomínios e empresas. A análise das pegadas considerou parâmetros biométricos para estimar o número de indivíduos e a possível presença de filhotes. As fezes coletadas foram analisadas para determinar a dieta. As carcaças de presas encontradas foram inspecionadas para identificar sinais de predação compatíveis com Puma concolor. As imagens capturadas pelas armadilhas fotográficas e câmeras de segurança foram utilizadas para confirmação da presença, possibilidade de individualização,
identificação de filhotes e determinação do sexo quando possível.

A confirmação das ocorrências foi baseada exclusivamente em evidências visuais, por meio de fotografias ou vídeos, independentemente da presença de indícios indiretos, como pegadas, pêlos ou carcaças de presas. Esse critério foi adotado para eliminar incertezas e favorecer a Esse critério foi adotado para eliminar incertezas e favorecer a individualização dos animais sempre que possível. As imagens analisadas tiveram origem em câmeras de segurança instaladas em residências, condomínios e empresas, em registros fornecidos por munícipes e nos materiais capturados pelas armadilhas fotográficas instaladas nos pontos de ocorrência.

O estudo adotou uma amostragem oportunística, método amplamente utilizado em pesquisas com espécies crípticas e de baixa detectabilidade, como felinos de grande porte. Embora os registros provenientes de moradores e câmeras de segurança não sigam um desenho amostral sistemático, essa abordagem é compatível com metodologias de ciência cidadã e tem se mostrado eficaz na detecção de grandes felinos em paisagens urbanizadas (Silveira et al., 2003; Beier, 1993; Miotto etal., 2014).

Ao todo, foram computadas 26 ocorrências confirmadas (Tabela 1). Embora o número total fosse de 65 registros, a contagem considerou apenas eventos distintos, eliminando duplicatas de um mesmo indivíduo no mesmo local, sendo considerada apenas a primeira ocorrência registrada. Adicionalmente, foram incorporados registros provenientes de municípios adjacentes quando a área de deslocamento do indivíduo pudesse influenciar o município de Itu, contemplando potenciais fluxos ecológicos relevantes para a região de estudo.

Todos os registros confirmados foram georreferenciados e mapeados no software Google
Earth Pro, considerando os limites administrativos do município de Itu (Figura 1). Esse
procedimento permitiu a visualização espacial dos pontos de ocorrência e, em alguns casos, possibilitou inferir trajetos de deslocamento e áreas de uso por determinados indivíduos.

Figura 1: Demonstração da localização das ocorrências sobre imagem de satélite extraída do Software Google Earth Pro, datada de 25/02/2025, sobre o perímetro do município de Itu (traçado BRANCO) e a área urbana consolidada do município (traçado AMARELO) com identificação do sexo (quando possível) e presença confirmada de filhotes.

4 RESULTADOS

Após a demarcação dos pontos de ocorrência e a avaliação das características individuais
dos registros, considerando as datas de detecção, foi possível identificar deslocamentos atribuídos aos mesmos indivíduos. A análise espacial indicou a existência de áreas de uso bem definidas, com estimativa de raio médio de aproximadamente 5 km para fêmeas e indivíduos com sexo não determinado, e 10 km para machos (Figura 2). Os indivíduos com sexo indefinido foram mantidos nas projeções espaciais, porém, caso sejam machos, podem representar maior amplitude de movimentação. Não foram definidos raios de ação para os filhotes, sendo considerado apenas o raio de suas respectivas mães.

A partir dessa avaliação, foi possível eliminar registros duplicados atribuídos ao mesmo
indivíduo (Tabela 2), resultando na identificação de 16 indivíduos adultos/jovens distintos e cinco filhotes distintos (Figura 3). Além da localização e identificação individual, em todos os pontos de ocorrência foram conduzidas buscas sistemáticas por indícios indiretos de presença, como pegadas, pêlos e fezes. As amostras fecais coletadas foram submetidas à análise qualitativa da dieta, permitindo a identificação das presas consumidas (Tabela 3).

Nos quatro indivíduos resgatados (1R, 5R, 8R e 16R), as análises coprológicas revelaram a presença de pêlos de Cerdocyon thous, Didelphis sp. e Lepus europaeus, além de penas de aves domésticas, tais como galinhas, patos e gansos. Nas demais amostras fecais também foram registradas penas de aves domésticas (Figura 4). Esses resultados evidenciam o uso de recursos alimentares sinantrópicos e sugerem influência direta da oferta de presas associadas a ambientes antrópicos, corroborando observações de padrões semelhantes em estudos prévios (Martins et al., 2008).

5 DISCUSSÃO

Os resultados obtidos neste estudo demonstram que Puma concolor apresenta notável
capacidade de adaptação ecológica a ambientes urbanizados, confirmando tendências descritas em estudos realizados em outras regiões do Brasil e da América do Sul (Beisiegel et al., 2013; Tortato et al., 2017). A presença de 21 indivíduos distintos utilizando a matriz urbana e periurbana de Itu/SP revela que o município compõe atualmente parte funcional do habitat da espécie, e não apenas uma área de passagem ocasional. Isso reforça o conceito de zona de coexistência, em que grandes carnívoros ajustam seu comportamento para explorar recursos disponíveis em ambientes antropizados.

A delimitação das áreas de ação estimadas — aproximadamente 5 km para fêmeas e
indivíduos sem sexo definido e 10 km para machos — está em consonância com estudos que indicam menores áreas de vida para onças-pardas em paisagens fragmentadas, onde a oferta de presas sinantrópicas e domésticas pode reduzir o esforço de forrageamento (Martins et al., 2008; Foster et al., 2010). Essa redução de deslocamento reforça a hipótese de que a urbanização pode modificar o comportamento territorial, criando núcleos de uso intensivo associados a fragmentos de mata, muitas vezes localizados no interior de grandes condomínios residenciais, corredores verdes e corpos d’água.

Do ponto de vista alimentar, a predominância de penas de aves domésticas e a presença de espécies oportunistas como Didelphis sp., Cerdocyon thous e Lepus europaeus nas amostras coprológicas indicam alterações na dieta e comportamento predatório, favorecendo presas de fácil captura, abundantes em áreas antrópicas. A exploração de recursos alimentares sinantrópicos já foi documentada para grandes felinos em contextos urbanos e está relacionada à plasticidade comportamental e oportunismo trófico (Gallo et al., 2021). Esse padrão, embora indique sucesso adaptativo em curto prazo, pode gerar aumento no risco de conflitos com seres humanos, especialmente em áreas com criação de aves de subsistência ou animais domésticos.

Além disso, o uso intensivo de áreas próximas a residências, condomínios e empreendimentos reflete a dependência de corredores ecológicos urbanizados, frequentemente compostos por fragmentos de vegetação remanescente, áreas de APP e margens de corpos hídricos.

A manutenção desses corredores é fundamental para a conectividade ecológica e para evitar o isolamento de subpopulações, um dos maiores riscos para a conservação de grandes felinos em paisagens fragmentadas (Cullen Jr. et al., 2016). Outro ponto relevante é que o uso de câmeras residenciais e empresariais para detecção de fauna demonstrou eficiência na geração de dados, especialmente em áreas onde a captura e o monitoramento por colares GPS são inviáveis. Essa abordagem participativa, com envolvimento direto da comunidade, constitui um modelo promissor para ampliação do monitoramento de grandes carnívoros em zonas urbanas, conforme sugerido por projetos de ciência cidadã aplicados a mamíferos de grande porte (Anderson et al., 2020).

Portanto, nossos achados revelam que a presença de Puma concolor em áreas urbanizadas resulta de um conjunto de fatores ecológicos e antrópicos — disponibilidade de alimento, presença de corredores e baixa pressão humana em determinados períodos do dia. Entretanto, tal cenário exige estratégias de manejo e políticas públicas voltadas à coexistência, visando minimizar conflitos e garantir a conservação da espécie. Conforme indicado em estudos recentes, ações de educação ambiental e protocolos de resposta rápida a avistamentos podem reduzir comportamentos humanos que favorecem interações negativas (Ferreira et al., 2022).

6 CONCLUSÃO

O presente estudo evidencia que Puma concolor apresenta elevada plasticidade
comportamental em áreas urbanizadas do município de Itu/SP, utilizando fragmentos florestais, corredores ecológicos e áreas verdes adjacentes, inclusive de condomínios residenciais fechados, como rotas de deslocamento e áreas de forrageamento. A identificação de 21 indivíduos distintos, ao longo do período analisado, demonstra que a presença da espécie na matriz antrópica não é ocasional, mas representa um padrão consolidado de ocupação.

A análise espacial permitiu estimar áreas médias de ação de aproximadamente 5 km para fêmeas e indivíduos com sexo indeterminado e 10 km para machos, compatíveis com valores observados na literatura para ambientes fragmentados. As análises coprológicas revelaram a inclusão de presas sinantrópicas na dieta, sobretudo aves domésticas, além de pequenos mamíferos oportunistas, indicando adaptação alimentar e exploração de recursos associados à urbanização.

Esses resultados reforçam que a urbanização não impede o uso do habitat por onças-pardas, mas promove alterações comportamentais relacionadas à territorialidade e ao forrageamento. A presença crescente da espécie em áreas antrópicas ressalta a necessidade de estratégias de manejo e políticas públicas que considerem o planejamento territorial, a conectividade de corredores ecológicos e a educação ambiental das comunidades locais. Assim, compreender o comportamento espacial e alimentar destas populações torna-se fundamental para reduzir conflitos, promover a coexistência e garantir a conservação de grandes predadores em paisagens urbanizadas.

Diante do cenário evidenciado neste estudo — marcado pela presença contínua de indivíduos de Puma concolor em áreas urbanizadas, exploração de recursos alimentares sinantrópicos e circulação entre municípios — torna-se evidente que a coexistência entre grandes carnívoros e a expansão humana já é uma realidade estabelecida no município de Itu. Pesquisas futuras que incluam telemetria, monitoramento genético e avaliação sistematizada da disponibilidade de presas [14:22, 14/12/2025] Eduardo Pedroso: poderão aprofundar a compreensão sobre o uso do espaço e subsidiar ações de manejo voltadas à redução de conflitos e à conservação da espécie, contribuindo para estratégias de coexistência em paisagens antropizadas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço imensamente ao amigo Antonio Carlos de Andrade, pela disposição, parceria e
participação ativa em grande parte das ações realizadas durante este estudo. Também registro meus agradecimentos aos amigos Rafael da Luz e Mariana Guimarães da Luz, da BK Adventure, pela dedicação, apoio na instalação das cameras-trap e no monitoramento de campo, cuja colaboração foi fundamental para a obtenção dos dados que sustentam este trabalho.

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