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Esporotricose: negligência e misericórdia

Por Eduardo Pedroso

É certo e seguro que controlar com o método de captura, castração e devolução a população de gatos de vida livre, os gatos de rua, os que formam colônias espalhadas pelas cidades do Brasil, é o melhor a ser feito em termos de saúde pública e bem-estar animal.

É enxugando a massa de gatos domésticos que habita as ruas, praças, terrenos, escolas, estacionamentos, clubes, condomínios etc, que vamos elevar nossa conexão com essa espécie a um patamar de dignidade e convivío pacífico, e retirar dela o que há de melhor, controle biológico e companhia.

Além disso, e principalmente, o controle oferece um benefício essencial, a prevenção de doenças zoonóticas.

A negligência

No momento em que este texto é escrito uma epidemia de esporotricose assola o Brasil. A doença zoonótica outrora incomum, e até considerada rara em algumas regiões do país, tornou-se um flagelo em boa parte do território nacional, dizimando sem piedade a população de gatos de vida livre e causando óbitos na população humana, como o ocorrido e noticiado pela imprensa na cidade de Manaus. (1)

Em outubro de 2023, o Dr. Flávio Teles, coordenador do comitê de micologia da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), durante um evento em Salvador, BA, alertou o país que vivemos um descontrole avançado da doença em todo o território nacional, e que “atualmente, no Brasil, 90% [dos casos] é pelo brasiliensis, a transmissão felina.” (2)

Em alguns locais, como em Itabuna, Sul da Bahia, parte considerável dos gatos de rua, e também gatos semidomiciliados, estão infectados por esporotricose. É realmente um número bastante significativo o de felinos contaminados, e claro, sem cálculo técnico que permita oferecer alguma estimativa real, a olho nu, não é exagero dizer que entre 5 e 10% dos gatos da cidade estão acometidos por esporotricose.

A situação desalentadora é agravada pela omissão do poder público, que nunca adotou políticas favoráveis ao controle da população de gatos de rua, e nem mesmo animais domésticos domiciliados, cães e gatos de pessoas de baixa de renda, não estão no radar da autoridades sanitárias da cidade.

Além disso, o centro de controle de zoonoses está sucateado, sobrecarregado e não efetua busca ativa de animais acometidos por esporotricose, seja para tratamento ou eutanásia assistida.

Bianca Moura, 28 anos, residente da cidade, profissional de manejo que aplica o método CED (3) para controlar as inúmeras colônias de gatos espalhadas pelo município, recebe muitos pedidos de resgate de gatos infectados por esporotricose, “para essa semana eu tenho quatro [resgates], às vezes são mais pedidos, não tenho como atender todos…”.

A profissional faz o serviço que o poder público não faz, muitas vezes sem recursos, muitas vezes sem ajuda para combustível.

Há casos de contaminação de humanos na cidade, um foi registrado pela mídia local. (4)

Itabuna, é claro, representa a realidade de milhares de cidades brasileiras.

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Outro óbito humano, esse não noticiado pela imprensa como o de Manaus, ocorreu na cidade de São Paulo, na Zona Leste da Capital.

Carlos Custódio de Oliveira, irmão de uma protetora de gatos, Luciana Custódio, ele mesmo um amante de gatos, recolheu das ruas, por compaixão, uma gata dócil e com feridas.

Carlos passou a tratar da gata em sua residência, sem o conhecimento da doença, não tinha ideia do que estava fazendo. Infelizmente ao seu ato de benevolência estava acrescida a desinformação. Essa combinação, quando se trata de uma zoonoses, costuma ser muito cruel.

Alguns meses depois, muito debilitado e com feridas espalhadas pelo corpo, Carlos faleceu em um hospital público do município.

Carlos Custódio de Oliveira e Jubileu.

No seu atestado de óbito a causa mortis não foi atribuída a esporotricose, uma vez que ele carregava outra enfermidade mais antiga, que obviamente se agravou com a chegada da nova doença, tornando seu estado de saúde extremamente fragilizado.

Há outros dois indícios de óbitos humanos recentes por esporotricose no país, um em São Mateus, ES e outro em Barra do Coqueiro, SE. Ambos os casos carecem de investigação e podem não se confirmar. Provavelmente as investigações epidemiológicas não serão feitas, nem mesmo para Carlos, apesar de todas as evidências apresentadas pela família.

Portanto, com exceção da pessoa que perdeu a vida em Manaus, os outros casos aludidos não vão se somar a estatística sobre mortes humanas por esporotricose no Brasil.

Entre os anos de 2016 e 2022 ocorreram 3.759 internações no país e “apenas” 206 óbitos. Os estados com maior número de internações foram São Paulo e Rio de Janeiro. (5)

Rio de Janeiro, a possível origem

Sobre o Rio de Janeiro, considerado o epicentro da doença no Brasil, um documentário nomeado Esporotricose, produzido pela Fundação Oswaldo Cruz, expõe de maneira crua uma chaga social que está atrelada a disseminação dessa enfermidade, qual seja, a imbricação da falta de saneamento básico e o alastramento da doença, especialmente na Baixada Fluminense, onde o filme é rodado em sua grande parte. (6)

Dados do IBGE de 2022 admitem que 51 milhões de pessoas não têm acesso a água encanada e rede de esgoto no país, número bastante contestável, e que ainda que próximo da realidade, seria um escândalo, pois o país, um dos potencialmente mais ricos do planeta, não deveria submeter 1/4 de sua população a esse castigo crônico. Uma negligência descarada do Estado brasileiro.

A esporotricose está inserida nesse contexto sócio-político, infelizmente. São as pessoas mais pobres as afetadas, e juntos dessas pessoas, os gatos de rua, também vulnerabilizados por omissão estatal, dessa vez traduzida em falta de políticas públicas voltadas para o controle da população de vida livre dessa espécie.

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Voltando a relativa baixa letalidade da zoonose, temos um outro dado que a caracteriza. Além de “matar pouco” a doença é particularmente fatal apenas em pessoas portadoras de comorbidades e idosos.

Observamos então o seguinte fenômeno, a junção desses dois fatores, baixa letalidade e restrição de óbitos a indivíduos com comorbidades e idosos, parece convidar as autoridades sanitárias competentes à indolência, inação e descaso. Em outras palavras, essa combinação de fatores tem levado funcionários públicos da saúde ao descrumpimento de suas funções básicas, algo também conhecido como prevaricação.

A esporotricose é uma doença subtropical negligenciada. Essa frase, para quem se interessa e pesquisa sobre o assunto, é conhecida, pois ela é proferida com recorrência, inclusive por autoridades sanitárias.

Outro efeito negativo que a combinação baixa letalidade / paciente com comorbidades apresenta é o fato de inibir o aprofundamento de estudiosos da biomedicina a produzirem estudos e experimentos para entender a natureza e a profundidade dessa patologia que se inicia a partir um elemento de decomposição de matéria morta e semi-morta na natureza.

Esse quadro de pouco apego da ciência ao tema pode ser notado pelo número excessivamente pequeno de estudos lançados nos últimos 10 anos, período de forte recrudescimento da doença, aparecimentos de surtos e mudança da mesma para o estatus atual, de epidemia.

Nessa esteira é impossível não falar da iniciativa da Dra. Leila Lopez, cientista que desenvolve há anos um teste rápido para identificação da esporotricose humana e animal. Esse teste se juntaria com vantagens a outros métodos de diagnósticos atuais, como a citologia e a cultura fúngica.

Entretanto, apesar da Dra. Leila gozar de amplo prestígio na comunidade cintífica e dirigir uma startup dentro da Universidade de São Paulo (USP), os recursos para alavancar o teste não chegam, corroborando em outro aspecto, o que já é conhecido, a esporotricose é um doença negligenciada, e isso se reflete na falta de investimento em pesquisa sobre a patologia.

É algo que dito de forma direta e vulgar, possa assim ser expressado: é uma doença que mata pouco e só mata gente velha e com comorbidade, e o que morre muito é gato. Portanto, não é alvo de interesse, estudo ou investimento.

O Controle ético de gatos de vida livre

Por isso, mais do que nunca e agora, é preciso aplicar o método CED (7) na população saudável de gatos de vida livre. É controlando a população saudável que se vai diminuir a disseminação da doença entre os indivíduos que habitam as colônias.

Uma vez esterilizados, os gatos perdem o impulso para atividades reprodutivas, os machos diminuem drasticamente seus embates dentro de rituais de acasalamento, e as fêmeas deixam de ser cobertas.

E são nesses momentos, nas brigas e nos acasalamentos, que a esporotricose se dissemina, que a transmissão é feita de indivíduo para indivíduo.

A eliminação dos hábitos relacionados a perpetuação da espécie é um divisor de águas na vida de uma colônia de gatos de rua.

Se existe uma chance de combater de verdade a epidemia que hora subjuga a população de gatos de rua e expõe a riscos seres humanos, essa chance é a adoção do método CED como política pública para controlar a população de gatos de vida livre.

E a adoção dessa medida precisa vir casada com a reestruturação dos centros de controle de zoonoses do país, em sua maioria em estado de sucateamento e desarticulados para colocar em prática um método de controle que necessita de busca ativa, ou seja, é imprescindível que exista dentro do CCZ uma equipe que saia todos os dias às ruas para capturar gatos e os transportar para a clínica do orgão público, ou particular conveniada, para que sejam castrados com técnica minimamente invasiva, marcados na orelha esquerda, vacinados contra raiva e posteriormente devolvidos para o local onde fazem área de vida e foram capturados.

Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Estadual Norte Fluminense (UENF) no periódico Pesquisa Veterinária Brasileira em 2018, demonstra que gatos não castrados são muito mais suscetíveis a contrair esporotricose. (8)

O estudo nomeado “Esporotricose em felinos domésticos (Felis catus domesticus) em Campos dos Goytacazes, RJ”, selecionou 100 indivíduos semidomiciliados que apresentavam feridas. Desse grupo, 66 testaram positivo para esporotricose, sendo 46 machos não castrados, 15 fêmeas não castradas, quatro fêmeas castradas e um macho castrado.

O percentual de não castrados no grupo que positivou para a doença é de mais de 90%, e quase todos os gatos estudados tinham acesso à rua e foram infectados no contato com a população de vida livre.

Esse estudo evidencia que sem o controle da população de gatos de vida livre com a aplicação do método CED, não será possível conter ou debelar a epidemia de esporotricose.

Prefeituras e políticos ligados a causa animal estão oferecendo remédio para a população ministrar em gatos semidomiciliados. A oferta é de itraconazol, o fungicida usado para a cura de paciente acometido por esporotricose.

Não há nada que impeça a distribuição de remédio uma vez que as caixas do medicamento sejam entregues mediante apresentação de prescrição médica.

O problema é chamar isso de combate a epidemia de esporotricose.

É imoral, é de uso político, é de uso eleitoreiro. Não há vacina para esporotricose, remédio não é vacina, e o combate só é possível controlando a população de gatos de vida livre.

***

A misericórdia

O gato doméstico de vida livre, o gato de rua, o gato que forma colônia, esse que capturamos com armadilhas no processo de aplicação do método CED para tentar controlá-los numericamente, uma vez que a espécie está em total descontrole, tem comportamento não compatível com o que se conhece comumente como pet, ou animal de companhia.

Fatores como o distanciamento do convívio humano e herança genética, fazem com que esses gatos guardem semelhanças de hábitos de animais selvagens, sendo classificados pela biologia como asselvajados.

O gato doméstico na condição asselvajada, ainda que domesticado há milhares de anos, ganha autonomia e passa a sobreviver de forma inteiramente independente, potencializando o instinto de predação nato dos felinos, se servindo de pássaros, insetos, roedores e outros pequenos mamíferos.

Espécie de alta adaptação ecológica, age de maneira oportunista, e dispõe comumente de lixo e de ração oferecida por humanos.

Sua autossuficiência assegura sua continuidade, exercendo área de vida em local ermo, de difícil acesso, longe da presença humana e reproduzindo para perpetuação da espécie.

Essa situação, bastante comum no meio urbano, foi descrita no livro The wild life of the domestic cat (A vida selvagem do gato doméstico) por Roger Tabor na década de 1980, quando o biólogo registrou suas observações comportamentais a respeito da espécie, escolhendo para isso os gatos de rua da cidade de Londres, na Inglaterra. (9)

É com esse tipo de gato, técnicamente asselvajado, feral, nada amistoso, de temperamento forte, e que evita o contato com humanos a todo custo, que nos deparamos nas ruas quando vamos a campo para aplicar o método CED.

E a esporotricose neste contexto? Como lidar com indivíduos asselvajados contaminados por esporotricose?

Que condições de tratamento clínico tem um gato asselvajado com feridas espalhadas pelo corpo? Qual o risco humano de um manejo prolongado, diário (seis meses no mínimo), para tentar recuperar este indivíduo?

Onde internar um animal como este?

Quantas clínicas na cidade de São Paulo, por exemplo, a maior cidade do país, aceitam tratar um gato asselvajado com esporotricose? Qual o custo financeiro deste tratamento?

Essas perguntas devem ser feitas.

E devem ser feitas para que suas respostas sirvam de base para uma tomada de decisão técnica para o procedimento da eutanasia.

A eutanasia para gatos de colônia asselvajados acometidos por esporotricose é uma ato de misericórdia.

O estresse do isolamento

Além das condições dadas acima, é necessário atentar para outros fatores. Capturar um gato asselvajado acometido por esporotricose e mantê-lo enclausurado pode ser muito comprometedor para a saúde do animal, o que pode gerar um efeito totalmente contrário ao desejado, no lugar de feridas secas, o surgimento de doenças preexistentes, que antes não se manifestavam por conta da relação de equilíbrio do indivíduo com o meio.

Seria muito interessante aplicar em gatos domésticos a mesma experiência que o cientista e médico veterinário, professor Maurício Barbanti, promoveu em papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) para captar o nível de estresse da espécie em ambientes e situações diferentes. (10)

Se no estudo com silvestres a conclusão foi de que papagaios verdadeiros de vida livre, selvagens, são aqueles que têm muito maior propensão a produzir e liberar cortisol do que os de outros grupos de papagaios analisados, a saber, indivíduos em situação de cativeiro em zoológico, a mesma espécie em criadouro comercial, e por fim papagaios levando a vida de animais de companhia (pet), a lógica nos leva a crer que um grupo de gatos de vida de livre também teria maior inclinação a produzir cortisol do que outros grupos que fossem estudados, como gatos de abrigos ou de companhia domiciliados e de companhia semidomiciliados.

E a propensão desses grupos, papagaios e gatos, ambos de vida livre e comportamento selvagem (asselvajado para os gatos), para produzir cortisol pode ser explicada pelo mesmo motivo, a vida livre impõe aos animais uma condição de estresse, sendo esse requisito para a produção do referido hormônio pelo organismo. O estresse advém de pressão sofrida de maneira contínua; o papagaio como presa de aves de rapina, o gato como vítima de efeito antrópico (maus-tratos), o papagaio macho em disputas corporais com outro macho nos rituais de acasalamento, o gato macho seguindo a mesma lógica, o papagaio fêmea para proteger sua ninhada, a gata seguindo a mesma lógica comportamental.

O cortisol é o hormônio do estresse e sua produção está condicionada a pressão sofrida na vida livre. Organismo com alta produção de cortisol significa que o indivíduo está sob pressão, em situação de extenuação, por exemplo.

Voltando especificamente para o gato doméstico, é esse tipo de animal, quando acometido por esporotricose, que se pretende isolar para tratamento. É contraproducente, é até mesmo desumano e pode atingir a situação de maus-tratos capturar um gato de temperamento forte, asselvajado, e confiná-lo para um tratamento longo.

Novamente a lógica se impõe e mostra que o gato transporta consigo o comportamento asselvajado descrito acima para o confinamento. O estresse é grande, e a liberação de cortisol atinge níveis altos. A pressão da vida livre é substituída pela pressão da perda da mesma, e isso não é uma contradição, pois estamos lidando com uma espécie de felino que descende diretamente do gato-selvagem-africano (Felis lybica).

Confinamento, estresse e queda do sistema imunológico

O estado de estresse emocional debilita as defesas do organismo, comprometendo o sistema imunológico, tornando doenças antes preexistentes agora sintomáticas. Essa condição de baixa imunidade não favorece apenas o aparecimento de sintomas de doenças preexistentes, mas também a contaminação por novos patógenos e infecções, doenças secundárias que podem se juntar de maneira oportunista, o que pode ser inevitável em situações de confinamento, especialmente se houver outros pacientes no local.

A verdade é que a chance de um gato asselvajado vencer a esporotricose no confinamento é muito pequena, e novamente se justifica o ato misericordioso da eutanasia.

A morte provocada e humanizada para gatos domésticos tem suporte legal. A lei estadual 12.916/2008 e a lei federal 14.228/2021 tratam de assegurar o procedimento em casos irreversíveis, em que a cura não pode ser alcançada, algo absolutamente factual na realidade de indivíduos asselvajados acometidos por esporotricose.

A DVZ-SP (Divisão de Vigilância de Zoonoses de São Paulo) adota em seu protocolo, e de maneira acertada, a mesma orientação para casos de gatos de vida livre e temperamento forte acometidos gravemente pela doença, apesar do órgão manifestar preferência, às vezes, pelo tratamento in loco, ou seja, oferecer fungicida para protetoras ministrarem nos animais na vida livre, o que na esmagadora maioria das vezes se demonstra ineficaz, com consequências desastrosas, como morte lenta e dolorosa do indivíduo por conta do insucesso do tratamento, transmissão do patógeno para outros animais e pessoas e agravamento da contaminação do ambiente.

Devolução para a vida livre, o perigo da recidiva e a morte lenta e dolorosa

Na hipótese remota de sucesso de tratamento de um gato de vida livre asselvajado, depois de vencer longos meses de confinamento e a incomoda manipulação diária, depois de um longo período de resignação, o que fazer com o indivíduo asselvajado supostamente curado de esporotricose?

Uma coisa é certa, ele não será um animal de companhia, seu destino não será uma feira de adoção para ser catapultado para um lar com crianças, ou para dormir no sofá de alguém que assiste a novela.

O gato asselvajado, retirado da colônia para tratamento de esporotricose, se vencer a doença, invariavelmente mantém seu comportamento asselvajado. Há raras exceções observadas.

Confiná-lo para o resto da vida numa gaiola de uma organização não governamental, ou qualquer outro lugar, parece ser consenso que é errado e desumano, e pode ser caracterizado como maus-tratos.

E devolver para a colônia? Devolver para o local onde foi capturado.

Não há um estudo que corrobore essa afirmação, mas a experiência de campo de técnicos e protetores tem mostrado que a possibilidade de recidiva, o reaparecimento da doença, é bastante recorrente.

Há relatos como o do gato asselvajado Spock, assim nomeado após sua captura em um clube da cidade de São Paulo em que se encontrava uma colônia afetada por esporotricose. O indivíduo foi entregue para o setor de epidemiologia do antigo CCZ-SP (Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo), hoje DVZ-SP (Divisão de Vigilância de Zoonoses de São Paulo).

Após sete meses de tratamento no orgão público ele foi considerado pelos médicos como curado e então devolvido para o clube, ou melhor, para a colônia que habitava o clube. Infelizmente o gato, após dois meses da devolução, apresentava feridas características de esporotricose espalhadas pelo corpo.

Spock não foi recaputurado, apesar das inúmeras tentativas de retirá-lo novamente da colônia. Depois de muita pressão de captura, sumiu do contato visual dos colaboradores do clube e seu corpo foi achado dias depois em avançado estado de decomposição. O gato amarelo de porte grande e temperamento forte teve uma morte lenta e dolorosa. (11)

Portanto, e novamente, está exposto um motivo que sustenta a eutanasia, a morte sem sofrimento de gatos domésticos de vida livre e comportamento asselvajado acometidos por esporotricose.

Lembrando que todo os processos descritos nesse artigo, a partir do subtítulo Misericórdia, devem ser observados por técnicos quando aplicados a realidade.

Toda avaliação de indivíduo asselvajado capturado contaminado por esporotricose deve ser feita com discrição e segurança, para que se possa reduzir ao máximo o sofrimeto do animal.

Infelizmente, um gato doméstico de vida livre e comportamento asselvajado acometido por esporotricose, perde seu lugar no mundo.

Neste caso, a eutanásia é um ato de misericórdia.

Notas e referências bibliográficas

  1. Amazonas registra morte de uma pessoa por esporotricose e cerca de 1,5 mil casos em 2025, aponta FVS, G1, Manaus, 02/10/2025.
  2. Marcos Moreira, Esporotricose: doença transmitida por gatos está em expansão no Brasil, Correio Brasiliense, Brasília, 19/10/2023
  3. Eduardo Pedroso, O que é o método CED, Faunauê, São Paulo, 28/06/2024.
  4. Bicharada, Dona Socorro acometida de esporotricose com 30 gatos infectados pede socorro, Instagram, Itabuna, 03/02/2026.
  5. Márcia Souza Menezes et alii, Hospitalizações e óbitos por esporotricose humana no Brasil no período entre 2016 e 2022, Cuadernos de Educación y Desarrollo, Espanha, 01/06/2026.
  6. Eduardo Vilella Thielen, Esporotricose, Selo Fiocruz Vídeo, 2016.
  7. Cláudia Guimarães, Entenda o porquê da captura, esterilização e devolução de gatos de rua, Revista Cães e Gatos, 16/11/2020.
  8. Adriana J. Almeida et alii, Esporotricose em felinos domésticos (Felis catus domesticus) em Campos dos Goytacazes, RJ, Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, 07/2018.
  9. Roger Tabor, The wild life of the domestic cat, Londres, 1983.
  10. Maurício Barbanti, Estresse, mitos e verdades, Faunauê, 2023.
  11. Eduardo Pedroso, A triste história de Spock, Instagram, 21/01/2026.

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