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Protocolo CEDITRAM para o controle da esporotricose em uma colônia de gatos de vida livre no sul do Brasil

Por Eduardo Pedroso

Brunna Gabriela Gonçalves de Oliveira Ferreira
Vitor Gonçalves Teixeira
Carla Forte Maiolino Molento
Danielle Ferreira de Magalhães Soares
Renato Silva de Souza a
Rita de Cassia Maria Garcia


Destaques

  • O TND-RTM integra o manejo populacional com o diagnóstico, tratamento e monitoramento da esporotricose felina.
  • A prevalência de esporotricose diminuiu de 52,4% para zero durante um período de acompanhamento de 18 meses.
  • O manejo terapêutico e preventivo em nível de colônia contribuiu para a interrupção da transmissão.
  • O monitoramento contínuo e a coordenação intersetorial possibilitaram a implementação e a adesão ao protocolo.
  • O protocolo oferece uma estrutura viável de Saúde Única, baseada em colônias, para ambientes urbanos endêmicos.
    Resumo
    Objetivo
    Descrever os resultados do protocolo de Captura, Esterilização, Diagnóstico, Devolução, Tratamento e Monitoramento (CED-TMM) aplicado a uma colônia de gatos errantes em uma área endêmica para esporotricose no sul do Brasil.

Métodos
Os gatos foram capturados e esterilizados, avaliados clinicamente para esporotricose e manejados de acordo com critérios terapêuticos predefinidos para a colônia, sendo esta classificada como positiva para esporotricose quando pelo menos um indivíduo era afetado. Todos os gatos de uma colônia positiva foram incluídos no manejo antifúngico, incluindo o isolamento dos gatos clinicamente afetados e o tratamento preventivo dos animais expostos, com monitoramento visual contínuo.
Resultados
Na avaliação inicial, 52,4% dos gatos (11/21) apresentavam lesões clínicas compatíveis com esporotricose. Dezenove gatos foram capturados e avaliados clinicamente, enquanto dois foram monitorados por meio de avaliação visual. Devido a mudanças demográficas durante o acompanhamento, 11,1% dos gatos restantes na colônia após 12 meses (2/18) ainda apresentavam lesões ativas. Ao final do período de acompanhamento de 18 meses, nenhum gato da colônia apresentava lesões ativas de esporotricose (0/18).
Conclusões
A aplicação do protocolo TND-RTM em uma única colônia de gatos de rua foi associada à resolução de casos clínicos de esporotricose e a melhorias no bem-estar animal em nível de colônia. Este estudo de caso descritivo destaca tanto o potencial quanto os desafios operacionais de uma abordagem baseada em colônias que integra o manejo populacional com o controle de doenças infecciosas em ambientes urbanos endêmicos.

Palavras-chave
Manejo populacional felino; Saúde única; Captura, esterilização e devolução; Zoonose; Manejo de doenças em nível de colônia
Introdução
O manejo de populações de gatos errantes é um componente fundamental do controle da esporotricose, uma micose subcutânea zoonótica causada por fungos do complexo Sporothrix, particularmente Sporothrix brasiliensis, que atingiu proporções epidêmicas no Brasil e se expandiu para outros países (Barros et al., 2004; Gremião et al., 2020; Cognialli et al., 2023). Os gatos domésticos atuam como hospedeiros primários e reservatórios, transmitindo o patógeno principalmente por meio de mordidas, arranhões ou contato direto com lesões contaminadas (Lloret et al., 2013). Os comportamentos reprodutivos e sociais de gatos não castrados contribuem para o contato próximo dentro das colônias, facilitando a transmissão do patógeno entre os animais e aumentando o risco de infecção humana (Gremião et al., 2021).
A captura, esterilização e devolução (CED) é comumente implementada para o manejo de populações de gatos errantes (Bastos et al., 2019; Carvalho, 2018; Little, 2015), particularmente em ambientes urbanos onde estratégias letais de controle populacional são amplamente contestadas (Wolf et al., 2019) ou operacionalmente limitadas. No entanto, as abordagens baseadas em CED têm produzido resultados heterogêneos e permanecem debatidas do ponto de vista ético e operacional (Crawford et al., 2019; Wolf et al., 2019; Read et al., 2020). Uma gama de estratégias alternativas ou complementares tem sido proposta e aplicada, incluindo programas intensivos de adoção, remoção permanente de gatos sem dono e intervenções baseadas em vacinação, dependendo das condições ecológicas, prioridades de saúde pública e aceitabilidade social (Crawford et al., 2019; Wolf et al., 2019; Read et al., 2020).
Do ponto de vista do controle de doenças, os programas convencionais de captura, esterilização e devolução (CED) não incorporam uniformemente componentes diagnósticos e terapêuticos sistemáticos, o que pode limitar sua capacidade de lidar com infecções zoonóticas (Garcia et al., 2024). Em resposta, algumas iniciativas de manejo populacional expandiram a estrutura do CED integrando medidas adicionais, como vacinação (Captura-Esterilização-Vacinação-Devolução, CEVD), tratamento clínico ou remoção direcionada de gatos afetados por doenças graves, em vez do retorno incondicional ao ambiente (Crawford et al., 2019; Wolf et al., 2019; Read et al., 2020; Robertson, 2008).
Nesse cenário heterogêneo de práticas de manejo populacional, o protocolo de Captura, Esterilização, Diagnóstico, Devolução, Tratamento e Monitoramento (TND-RTM) foi desenvolvido como uma abordagem contextualizada e em nível de colônia para áreas urbanas endêmicas de esporotricose. O protocolo integra diagnóstico clínico, tratamento antifúngico e monitoramento pós-intervenção aos esforços de manejo populacional, visando tanto o bem-estar animal quanto o controle de doenças zoonóticas em ambientes urbanos definidos.
Este estudo descreve a implementação e avaliação do protocolo TND-RTM ao longo de um período de 18 meses em uma colônia de gatos errantes localizada em terreno público no sul do Brasil. Propõe um modelo em nível de colônia para o manejo da esporotricose felina, avançando duas abordagens complementares: (i) a classificação de uma colônia como positiva para esporotricose quando pelo menos um indivíduo é afetado pela doença, refletindo a exposição compartilhada e o risco de transmissão dentro da colônia (Rodrigues et al., 2016; Daros Bastos et al., 2025; Dançante, 2017); e (ii) a implementação de uma estratégia de manejo coletivo na qual todos os gatos de uma colônia positiva são incluídos no tratamento antifúngico, independentemente da confirmação diagnóstica individual, como uma abordagem de redução de danos em um contexto endêmico.
Trechos das seções
Desenho e período do estudo
Este estudo de caso observacional descritivo foi conduzido ao longo de um período de 18 meses, de 2023 a 2025, em uma área urbana do sul do Brasil. O estudo seguiu um delineamento não experimental, sem randomização ou grupos de controle.
Local e população do estudo
Uma colônia de gatos de rua composta por 21 indivíduos identificados foi monitorada em uma área suburbana de Curitiba, Paraná, sul do Brasil. A colônia ocupava um terreno público dentro das dependências da sede administrativa da Fundação de Ação Social, um ambiente…
Composição e acompanhamento da colônia
Na avaliação inicial, a colônia de gatos de rua era composta por 21 indivíduos (15 fêmeas e 6 machos). Dezenove gatos (14 fêmeas e 5 machos) foram capturados com sucesso, castrados, microchipados e avaliados clinicamente. Os dois gatos não capturados (um macho e uma fêmea) não apresentaram lesões visíveis durante avaliações visuais repetidas e foram classificados como expostos, porém assintomáticos; entretanto, a infecção subclínica não pode ser descartada. Três gatinhas presentes na avaliação inicial foram removidas da colônia.
Discussão
Este estudo de caso observacional descritivo documenta a aplicação do protocolo TND-RTM em uma colônia de gatos errantes localizada em uma área urbana endêmica para esporotricose no sul do Brasil. Além de documentar os resultados clínicos, este estudo operacionaliza uma abordagem baseada na colônia para o manejo da esporotricose, redefinindo o status da doença em nível de grupo e implementando o manejo antifúngico coletivo dentro das colônias positivas.
A resolução completa dos casos clínicos de esporotricose ao longo do…
Conclusões
A aplicação do protocolo TND-RTM em uma colônia de gatos errantes localizada em uma área endêmica para esporotricose foi associada à resolução de casos clínicos ao longo de um período de acompanhamento de 18 meses e a melhorias observáveis ​​no bem-estar animal em nível de colônia. Ao integrar o manejo populacional com diagnóstico, tratamento e monitoramento, este estudo de caso descritivo demonstra a viabilidade operacional de uma intervenção focada na doença e baseada em colônias em um contexto urbano específico.
Declaração sobre IA generativa e tecnologias assistidas por IA no processo de preparação do manuscrito
Durante a preparação deste trabalho, o autor utilizou o ChatGPT (OpenAI) para auxiliar na revisão linguística, tradução e formatação do manuscrito. Os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem total responsabilidade pela publicação.

Declaração de contribuição de autoria CRediT
Brunna Gabriela Gonçalves de Oliveira Ferreira: Redação – rascunho original, Administração do projeto, Metodologia, Investigação, Análise formal, Curadoria de dados, Conceitualização. Vitor Gonçalves Teixeira: Redação – revisão e edição, Metodologia. Carla Forte Maiolino Molento: Redação – revisão e edição, Validação. Danielle Ferreira de Magalhães Soares: Redação – revisão e edição, Metodologia. Renato Silva de Souza: Redação – revisão e edição. Rita de Cassia Maria Garcia: Redação – revisão e
Declaração de ética
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais da Universidade Federal do Paraná (protocolo nº 026/2023).

Financiamento
Este estudo foi financiado pela CAPES, CNPq e Coordenação de Pesquisa Científica e Desenvolvimento Tecnológico (Edital 04/2023).

Declaração de conflito de interesses
A autora declara não haver conflitos de interesse.

Agradecimentos
Bolsa de mestrado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e apoio financeiro para seu programa de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Carla F. M. Molento recebeu uma Bolsa de Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os autores agradecem à Boehringer, ao Instituto PremierPet e à Prefeitura Municipal de Curitiba pelo apoio a esta pesquisa.
Referências (25)
SA Robertson
Uma revisão do controle de gatos selvagens
J. Felino Med. Surg.
(2008)
MB. Barros e cols.
Epidemia de esporotricose transmitida por gatos no Rio de Janeiro, Brasil: descrição de uma série de casos
Clin. Infectar. Dis.
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A.L.F. Bastos e cols.
Manejo populacional de gatos selvagens
P.C.F.B. Carvalho
Caracterização populacional e descrição do manejo de gatos errantes no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, Belo Horizonte, MG. Dissertação de Mestrado
(2018)
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Aumento da incidência de infecções por Sporothrix brasiliensis, Curitiba, Brasil, 2011–2022
Emergir. Infectar. Dis.
(2023)
H. M. Crawford et al.
Um caso de revelação bombástica — por que a captura, esterilização e devolução não é uma solução ética para o manejo de gatos de rua (Felis catus)
Animais
(2019)
A.M.S.G.C. Dançante
Pesquisa ambiental de agentes de esporotricose em Portugal. Dissertação de Mestrado
(2017)
FAG Daros Bastos et al.
Esporotricose transmitida por gatos pelo Sporothrix brasiliensis: foco em suas potenciais vias de transmissão e perfil epidemiológico
Med. Mycol.
(2025)
B.G.G.O. Ferreira e cols.
Articulação intersetorial para estratégias de manejo populacional de gatos de colônia de livre circulação em Curitiba, Brasil
Braz. J. Veterinário. Res. Anima. Ciência.
(2024)
R.C.M. García et al.
Manejo de esporotricose em gatos de vida livre: implementação do programa CEDITRAM e definição de colônias positivas em Curitiba, PR

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